O canal auditivo do cão tem a forma de um L: desce na vertical e depois dobra para dentro, em direção ao tímpano. É um desenho que protege, mas que também retém humidade, cera e calor. Junte-lhe orelhas caídas ou muito pelo dentro do canal e tem o ambiente ideal para bactérias e leveduras se multiplicarem.
É por isso que a otite externa, a inflamação desse canal, é tão comum. A boa notícia é que, apanhada cedo, costuma resolver-se bem. A menos boa é que tende a voltar se ninguém olhar para o que a está a provocar.
Os sinais a que deve estar atento
Os cães não se queixam, mas mostram. Estes são os sinais mais frequentes, por ordem de urgência:
| Sinal | O que pode querer dizer | Quando agir | |
|---|---|---|---|
| r1 | Abana a cabeça e coça a orelha com mais frequência | Desconforto ou comichão no canal | Observar 1–2 dias |
| r2 | Cheiro intenso, cera escura ou amarelada | Infeção por bactérias ou leveduras (Malassezia) | Marcar consulta |
| r3 | Orelha vermelha, quente ou dorida ao toque | Inflamação ativa | Marcar consulta |
| r4 | Abanar súbito e insistente depois de um passeio no campo | Possível pragana dentro do canal | No próprio dia |
| r5 | Cabeça inclinada, perda de equilíbrio, olhos a mexer | Possível envolvimento do ouvido médio ou interno | Urgente |
| r6 | Pavilhão da orelha inchado como uma almofada | Otohematoma, muitas vezes por abanar demasiado | No próprio dia |
Porque é que os cães têm otites
Os veterinários costumam separar as causas em três grupos. Ajuda a perceber porque é que tratar só a infeção nem sempre chega.
Causas de fundo
- Alergias. A dermatite atópica (alergia a ácaros do pó, pólenes) e a alergia alimentar estão entre as causas mais comuns de otite recorrente. Muitas vezes vêm acompanhadas de comichão nas patas, na barriga ou à volta dos olhos.
- Ácaros do ouvido. Mais frequentes em cachorros e em casas com gatos. São contagiosos entre animais.
- Corpos estranhos. Em Portugal, as praganas são o caso clássico entre a primavera e o fim do verão.
- Alterações hormonais, como o hipotiroidismo, que mudam a pele e a produção de cera.
Fatores que facilitam
- Orelhas caídas e pesadas, como no Cocker Spaniel, no Basset Hound ou no Labrador.
- Canais estreitos ou com muitas pregas, como no Bulldog Francês, no Pug e no Shar Pei.
- Humidade: banhos, praia, piscina e orelhas que ficam molhadas.
- Limpezas a mais, que irritam a pele do canal.
O que mantém o problema
Com inflamação repetida, a pele do canal engrossa e o canal estreita. Bactérias e leveduras instalam-se com mais facilidade e a otite passa a voltar mesmo depois do tratamento. Por isso o veterinário insiste em tratar até ao fim, mesmo quando os sinais já desapareceram.
Quando a alimentação conta
Uma otite isolada, depois de um banho no rio ou de uma pragana, raramente tem a ver com comida. A alimentação passa a contar quando a otite volta. Nos cães com alergia alimentar, as orelhas são muitas vezes o primeiro sítio onde o problema aparece, e por vezes o único.
Sinais de que a comida pode estar envolvida
- Duas ou mais otites no mesmo ano, mesmo depois de tratamentos bem feitos.
- As duas orelhas afetadas ao mesmo tempo.
- Comichão também nas patas, na barriga, à volta dos olhos ou na zona do ânus.
- Sinais o ano inteiro, sem melhorar no inverno ou piorar só na primavera (o que apontaria mais para pólenes).
- Fezes moles, gases ou mais idas à rua do que o normal.
Como se confirma: a dieta de eliminação
Não há análise ao sangue nem teste de pelo fiável para alergia alimentar em cães. A forma de confirmar é uma dieta de eliminação, sempre combinada com o veterinário:
- 01Escolher a dietaUma proteína que o cão nunca comeu antes, ou uma dieta hidrolisada prescrita pelo veterinário.
- 02Dar só isso durante cerca de oito semanasSem biscoitos, ossos, restos da mesa nem medicamentos com sabor. Um único snack pode estragar o teste.
- 03AvaliarSe as orelhas e a comichão melhorarem, a comida antiga volta à taça durante uns dias. Se os sinais regressarem, está confirmado.
- 04Escolher a alimentação de longo prazoSem o ingrediente que provoca a reação.
O que pode fazer já, no dia a dia
- Saber exatamente o que o seu cão come. Prefira rótulos onde a proteína animal está identificada pelo nome (frango, peru), e não escondida em «carnes e subprodutos animais».
- Reduzir a variedade sem necessidade. Trocar de marca, sabores e snacks a toda a hora torna impossível perceber o que causa uma reação.
- Apontar tudo. Quando muda a comida, os snacks ou os produtos de limpeza das orelhas, registe a data. É a informação mais útil que pode levar à consulta.
Na Benny, cada receita junta uma proteína animal identificada com vegetais, vitaminas e minerais, e o rótulo diz tudo o que está lá dentro. Para saber o que procurar num rótulo, veja o guia Como ler o rótulo da comida do seu cão.
O que fazer em casa (e o que evitar)
Secar bem as orelhas depois do banho, da praia ou da chuva, com uma toalha macia e apenas na parte visível.
Limpar só quando necessário, com um produto de limpeza auricular recomendado pelo veterinário.
Ver as orelhas uma vez por semana: cor, cheiro, quantidade de cera. Assim percebe depressa quando algo muda.
Depois de passeios no campo, passar a mão pelas orelhas e entre os dedos à procura de praganas.
- Cotonetes dentro do canal. Empurram a cera e a sujidade para o fundo e podem ferir o tímpano.
- Água oxigenada, vinagre, álcool ou óleos caseiros. Irritam a pele e podem ser perigosos com o tímpano perfurado.
- Gotas que sobraram de um tratamento anterior. A otite de hoje pode ter outra causa e o tímpano tem de ser avaliado antes.
Quando ir ao veterinário
Marque consulta sempre que houver cheiro, secreção, dor ou vermelhidão, e vá no próprio dia se suspeitar de uma pragana ou se o cão inclinar a cabeça ou perder o equilíbrio. Na consulta, o veterinário observa o canal com um otoscópio, confirma se o tímpano está íntegro e, muitas vezes, analisa uma amostra da cera ao microscópio para saber se o problema são bactérias, leveduras ou ácaros. Com isso escolhe o tratamento certo.
Se for a segunda ou terceira otite do ano, leve uma lista do que o seu cão come, incluindo snacks. É a informação mais útil para começar a procurar a causa.
Perguntas frequentes
- A otite passa sozinha?
- Raramente. Uma irritação ligeira pode acalmar, mas uma infeção instalada costuma precisar de tratamento. Esperar demasiado aumenta o risco de o canal ficar mais estreito e de a otite voltar.
- A otite é contagiosa?
- A otite causada por bactérias ou leveduras não passa de um animal para outro. A causada por ácaros do ouvido passa, por isso nesse caso o veterinário pode tratar todos os animais da casa.
- Um cão com otite pode comer Benny?
- Sim. Se estiver a fazer uma dieta de eliminação prescrita, fale primeiro com o veterinário, porque nessa fase o cão deve comer apenas o que ele indicar.
- Há raças com mais tendência para otites?
- Sim. Raças de orelhas caídas (Cocker Spaniel, Basset Hound, Labrador) e de canais estreitos ou com pregas (Bulldog Francês, Pug, Shar Pei) têm mais episódios. Raças com tendência para alergias, como o West Highland White Terrier, também.
